terça-feira, 12 de novembro de 2019

Sussurros antes do amanhecer

Ela se afastou dos vidros que cobriam toda a parede voltada para a cidade abaixo. Segurava uma taça de cristal com  um líquido vermelho quente em seus dedos fantasmagoricamente brancos.

Um homem grande, pálido, entrou na sala, com a cabeça baixa, a beleza dela o intimidava sempre.
- Pediu para me ver, Dona Mercedez?
Ela se virou em direção ao acanhado Brujah:
- Pedi, Eli.
Ele observou e escutou ela se movimentando em sua direção, fitava apenas os saltos altos vermelhos. Sentiu que ela pôs o dedo indicador em seu queixo e obrigou-o a olhar diretamente nos seus olhos:
- Parece tenso. Beba algo.
E estendeu a taça a ele, que agarrou com as duas mãos, bebendo lentamente. Ela tirou-lhe o cabelo que caia na testa, antes de se afastar e voltar a encarar a cidade lá em baixo.

- Você viu as fitas. São eles? São os mesmos?
Ele acabou de tomar o líquido em êxtase.
- Sim, senhora. Estes dois eu vi no estacionamento da Federal.
- Esta cobrinha está trazendo bruxos para perto da família... Vamos ter que cuidar disso...
Ele ergueu a sobrancelha rapidamente e perguntou:
- Devo eliminá-los, senhora?
- Não, claro que não. Deixe que ela pense que a trégua ainda faz sentido! Mandarei outros fazerem. E dai ela será pega de surpresa... O contra ataque deles, seja efetivo ou não, será perfeito para a gente.
Ela se volta novamente na direção do homem, que baixa a cabeça.
- Vá, Eli. Lembre-se: você nunca esteve aqui!

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Esta estranha mania - Parte I



- Interessante que chegou a estas conclusões. E elas fazem todo o sentido.


- Agradeço, Anderson. Mas ainda tenho tantas teorias, tantas perguntas!

- Algumas teorias você vai poder por à prova quando seus conhecimentos em forças aumentarem. Não conseguirá acelerar nenhuma partícula neste estado, Bino.

O professor ergueu a mão e soltou as anotações no ar, que por um segundo ficaram suspensas, até que ele declamasse: IGNATE! E as folhas de papel se incendiram enquanto desciam lentamente até o chão. Quando o tocaram, já não havia mais nada.

- Mas, Anderson! Por quê?
- Por muito menos a inquisição já foi formada, rapaz! Até que aprenda a escrever um grimório este tipo de coisa tem que ficar APENAS na sua cabeça.

Ele concordou com a cabeça:
- Mas posso continuar observando? Procurando?

- DEVE! Você só vai conseguir provar as teorias que propõe se observar outras facetas. Há outros aqui no campus como você.
- Como eu? Exatamente?
- Claro que não! Rs Já te falei que cada um faz à sua própria maneira! Cada um expressa sua própria singularidade, método.

Ele meneou com a cabeça e olhou o relógio de pulso:
- Preciso ir! Tenho que encontrar a Thais antes da aula!

Levantou-se enquanto o professor pegava um charuto na gaveta: 
- Bino...


O rapaz abria a porta quando se virou para prestar atenção.

- Já te falei sobre esta estranha mania...

O rapaz olhou intrigado: Que mania?
O professor pôs o charuto na boca: IGNATE! A ponta do charuto se acendeu e ele acrescentou:


- Esta estranha mania de tentar ser humano...


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

No creo en las Brujas - Parte I


- Mas eu não preciso disso para fazer a proteção, já faço de outra maneira!

Disse ela enquanto desenhava com giz um pentagrama, no centro do qual colocou uma vela azul.
Seeeei que pode, disse a serpente, mas asssssim fica maisssss forrrrte.
- Ele é um vampiro, não é? – virou-se em direção à serpente, que recuou, sem responder. – Ele não respira, não tem calor! Zumbis podem dar aula?
A cobra penas sibilou, ela olhou inconformada. Puxou um espelho de mão de prata e começou a fazer os desenhos no rosto. Desenhos antigos, que seus ancestrais usavam mil anos atrás.

- Bem... vampiros também não deveriam poder!
A serpente subiu rapidamente pelas pernas na bruxa e suspirou em seu ouvido.
Imagine sóo que poderíamossss fassssserrrrrr com sangue de vampirosssssss

Acendeu a vela azul, pegou a adaga, consagrou-a e em seguida recitou:
- Pele de dragão, olhos de serpente. Nem o fogo, nem o vento, nem a terra e nem a tempestade me atingem.

A serpente sibilou sua língua novamente. Sentiu que por baixo de sua pele cresceram escamas verdes, viu a leve ondulação que fizeram em sua pele ao crescerem. Tocou com os dedos: quase insensível ao toque. Levantou-se:

- As vezes eu tenho a  impressão que conforme a luz bate, eu fico meio verde, sabia?
A serpente olhou-a com descaso.
Leve a adaga, nunca sssse sssssabe o que pode acontecccccerrrr numa aula de química orgânica!



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

You got email - PARTE I


$ofi@: Knock Knock

Ek3rtuR91: Quem é?

$ofi@: A maçã!

Ek3rtuR91: Bom te ver de novo! Já estava com saudades! =)

$ofi@: Sei... Como estão as aulas? Esta se divertindo? Fazendo amigos?

Ek3rtuR91: Um tédio! É ruim ser mais esperto que seus colegas de classe, que os professores... =(

$ofi@: Você precisa do diploma, você precisa do disfarce e acima de tudo: tava na hora de sair do Rio. Já tinha gente na sua cola. Você já tinha aprontado demais. Aqueles Morcegos ainda tão te procurando online a na cidade. Mas dei um jeito de despistar eles pra ti.

Ek3rtuR91: Conseguir vencer o Cicada foi ótimo. Mas não entendi tudo ainda. É muita coisa, muita informação! Parece que foi só a ponta do iceberg! Que diabos é MANA, Sofia?

$ofi@: Pergunta abstrata, Ek3rtuR91! Mas pensa que é combustível! Combustível pra você!

Ek3rtuR91: Eu vi nuns fóruns da Deepweb. Achei até umas oração pra conseguir, só que tem que se cortar! Fiquei cismado! =/

$ofi@: Também sou cismada com isso! Quando preciso eu vou até um lugar aqui e tals! Mas na ausência... talvez seja bom tentar! Lembre-se do que eu sempre digo!

Ek3rtuR91: NUNCA SEJA PEGO DESPREVINIDO! Eu sei... talvez eu tente!

$ofi@: Depois me diga como foi! Se funcionar também vou tentar! Vou indo! Se cuida! xoxo

A tela ficou escura... como se o computador tivesse simplesmente desligado. Ele pegou um pedaço de papel meio amassado sob uma lata de Coca-Cola, onde umas palavras em uma língua estranha estavam escritas. Abriu a gaveta atrás de um estilete.


Segurou-o, puxou a manga do moletom:

- Será que tenho que desinfetar esta coisa?


Juraria que escutou a voz de $ofi@ chamando-o de idiota.

- Impia mamadme rectum drisco moesto – E começou a se cortar, para seu espanto não foi sangue que começou a surgir timidamente, mas sim uma luz azul bruxelante, que foi aumentando conforme ele recitava o restante das palavras – moesto dricmia volante gropous uctiumae.

Repetiu as palavras mais 2 vezes e cada vez sentia menos dor e mais prazer, mais força. Ele não podia ver, mas seus próprios olhos emanavam aquela luz azul e todos seus gadgets escreviam fantasmagoricamente as palavras que saiam de sua boca.


A oração - Parte I


- Pater noster, qui es in cælis: sanctificétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie;
et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in tentatiónem; sed líbera nos a malo. Amem
Nada...

Apertou ainda mais a cinta de cilício, sentiu o sangue escorrer pela coxa esquerda e pingar no chão. Segurou o urro de dor.


- Pater noster, qui es in cælis: sanctificétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra...

Sentiu a mão no seu ombro: Estou aqui, ele disse.


Sem coragem de olhar para trás, sorriu de alívio:
- Por que me abandonastes?
Nunca te abandonei, Dante. Estou contigo o tempo todo, desde antes de você nascer e estarei contigo até que entendas que não sou mais necessário...

- Estou perdido. Não sei se fiz o certo ao refugiar-me aqui. Só há descrentes, só há mundanos!
Meu amado Dante, não deixes que tua luz afaste as mariposas que te procuram. A sua luz deve ser farol, para guiar e não chama de fogo, para matar. Já te disse que Jesus se cercava de prostitutas, leprosos e pobres, não dos reis e sacerdotes. Teu orgulho te corrompe!

Por cima do ombro ele passou a chibata para Dante, que a segurou tremendo.
- Quantas, senhor?
7, Dante! O número da alma com cabelos de anjo que vai te achar!